Formação

«Tínhamos consciência de que éramos melhor do que os nossos adversários directos»

Foi tendo sempre presente esta realidade que a equipa de Juniores do Varzim, garantiu, na última jornada da 2.ª fase, a manutenção no campeonato nacional da 1.ª divisão. A afirmação pertence a António Carlos Rodrigues, o treinador que assumiu o comando da equipa numa altura em que já se haviam jogado 5 jornadas e o Varzim ocupava o último lugar na classificação.
Em entrevista ao site oficial do Clube, o técnico poveiro fala-nos do trabalho desenvolvido desde que iniciou funções no Clube, bem como das dificuldades com o Varzim se foi deparando jogo após jogo e do culminar da época desportiva.

Chegou ao Varzim no dia 12 de Setembro do ano passado para orientar a equipa de Juniores que havia disputado, até esse momento, 5 jogos e tinha amealhado apenas 1 ponto, ocupando o 12.º lugar da classificação. Quais as razões que o fizeram aceitar o convite? Foi o desafio inerente à realidade que a equipa enfrentava?

Bem, em primeiro lugar, foi a paixão pelo Varzim. Era o concretizar de um sonho. Relativamente ao facto de a equipa estar em último lugar e com apenas 1 ponto, em 5 jogos, em nada interferiu na decisão. Quem me conhece sabe que sou ambicioso e que adoro desafios. Treinar a equipa de Juniores do Varzim seria, sem dúvida, um enorme desafio e foi com esse sentimento que aceitei o convite. Sou treinador há algum tempo, embora a idade seja de novo para o posto, entendo que nestas coisas não existem idades e, sim, competências e, como tal, acreditei que ia ser feliz e assim foi. O engraçado é que desconhecia por completo o potencial da equipa, não tinha visto nenhum jogo e não conhecia os jogadores. Mas acredito no meu trabalho e na minha equipa técnica e, após duas semanas de trabalho, sentimos que existia uma boa base de jogadores para fazer cumprir os objectivos traçados. Uma palavra também para o grupo de trabalho fantástico que liderei, e um “muito obrigado” aos capitães que foram um grande elo de ligação entre quem é líder e quem é liderado. Quando se interage desta forma tudo se torna mais fácil.

Depois dos primeiros dias de treino que conclusões tirou em relação ao tipo de trabalho que havia necessidade de desenvolver para que a equipa pudesse evoluir e obter resultados mais positivos?
Primeiramente, percebi que o plantel era extenso. Houve dias em que tínhamos apenas meio campo nos sintéticos para trabalhar e jamais o poderíamos fazer com 30 atletas. Era preciso tomar decisões e nem sempre as pessoas entendem isso. Existe sempre a possibilidade de não sermos correctos ou de não tomarmos as melhores opções. Mas a vida de Treinador é isso mesmo, tomar decisões. Nós arriscámos e acredito que, com essa decisão, foi possível fazer evoluir os que ficaram e em quem confiámos. Depois disso, apresentámos o nosso plano e a nossa estratégia aos atletas. Houve uma rotura de mentalidade em relação à disponibilidade deles para o treino e penso que todos saímos a ganhar. O facto de não aparecerem resultados, quebrava o aspecto psicológico e, inerente a isso, a disponibilidade física. Portanto, era importante voltar a ganhar jogos rapidamente e nisso fomos felizes.

O Campeonato Nacional de Juniores é uma prova muito competitiva e, na zona norte, na qual o Varzim está inserido, as equipas são todas muito fortes. Quais foram as maiores adversidades com que o Varzim se deparou e o quê que, na opinião do treinador, falhava nos jogos e que impedia a equipa de pontuar mais vezes?
É de facto um campeonato difícil e equilibrado. Repare que a decisão de quem foi à fase final ainda na fase regular e de quem, na fase de manutenção, desceu, só aconteceu na última jornada. As maiores dificuldades são as inerentes a um campeonato de formação onde, raramente, pouco ou nada, se sabe dos adversários, as informações das equipas são poucas ou quase nenhumas. Acabámos por ter a sorte de ter boas relações com alguns clubes que nos foram facultando informações, assim como nós fomos dando algumas. Relativamente ao facto de não sermos felizes em alguns jogos também tem muito a ver com a forma como nos apresentávamos, entrámos em todos os campos determinados a vencer os nossos adversários e com isso o risco de perder também era maior. Não nos podemos esquecer que estamos aqui para formar jogadores e não podemos abdicar disso.

Sabemos que o António Carlos é um treinador forte dentro do balneário, em termos de discurso. Qual foi a mensagem mais importante que tentou incutir aos seus jogadores e que entendia ser fulcral para eles terem sucesso?
Agradeço esse elogio mas, quem me conhece, sabe que isso é, apenas e só, a imagem que passa cá para fora. Adoro rir e viver feliz e, dentro do balneário, é esse o ambiente que gosto de respirar. Dou muita liberdade aos jogadores e com isso também lhes exijo responsabilidades. A única mensagem que lhes passei foi a de que eles tinham de perceber que estavam a ter a oportunidade de jogar num dos melhores clubes deste país, um clube que tem no seu passado um rol de grandes jogadores formados com este emblema ao peito. O Varzim tem uma mística muito própria das nossas gentes. Somos um povo de bravos marinheiros e essa foi a linha de orientação.

Na 1.ª fase o Varzim ganhou apenas 6 dos 22 jogos. Alguma vez sentiu que a sua mensagem não estava a passar para os jogadores?
Não vejo as coisas dessa forma. O que vi foi que, aquando a nossa entrada, a equipa estava em último lugar e, quando acabou a fase regular, o Varzim estava fora dos lugares de despromoção. Estamos aqui para formar jogadores e essa é a linha de orientação do clube. É claro que é melhor formar a ganhar do que a perder, mas por vezes temos que correr riscos para também poder colher frutos. Fomos elogiados pelos adversários pelo futebol atractivo que fomos apresentando. Repare, como posso formar avançados se vou jogar fora e não os coloco a jogar? Em todos os jogos olhamos os adversários olhos nos olhos.

A luta pela manutenção foi renhida e durou até à última jornada. O Varzim conseguiu escapar à descida de divisão. O António Carlos fez um vídeo de motivação para os jogadores, que até já circula pelo youtube e na qual podemos ver vários rostos conhecidos do futebol nacional e internacional e personalidades das mais diversas áreas a incentivar a equipa de Juniores à vitória. Como é que os rapazes reagiram às imagens?
Ao ouvir essa pergunta até me arrepio. Foi de facto uma corrente de apoio fantástica. Algo que, inicialmente, não passava de uma brincadeira, rapidamente se tornou uma coisa bem séria. Prefiro não falar em nomes, porque corria o risco de me esquecer de alguém, mas desde atletas olímpicos, modelos internacionais, cantores, jogadores de futebol, treinadores, jornalistas, directores e funcionários do clube e sem esquecer os pais dos atletas, foi fantástica a forma como as pessoas foram aderindo ao nosso pedido. Penso que quem saiu a ganhar foi o Varzim SC e a Cidade da Póvoa de Varzim, pois de alguma forma demos a conhecer a existência do clube e da cidade a pessoas que a desconheciam. Mas queria agradecer em especial a muitos ex-atletas do Varzim que foram simplesmente maravilhosos na prontidão com que responderam “sim” ao nosso pedido e muitos deles ainda contagiaram colegas do próprio clube onde actuam. Aqui quero também fazer uma referência à claque “Rapazes da Superior” que, ao longo da época, foi marcando presença nos nossos jogos, sempre num incentivo construtivo, quer nos bons, quer nos maus momentos. Tenho que referir que, para aparecerem na gravação do vídeo, alguns tiveram que sair mais cedo do trabalho ou, em alguns casos, sacrificar tempo de lazer, isto prova que o Varzim está vivo e que o apoio ao Varzim é a vida de muita gente. A todos eles um “Ala-Arriba”. Foi fantástico. Não passo um dia sem dar uma olhadela ao vídeo. Fica aqui o agradecimento público, mais uma vez, a quem nos prestou esse incentivo.

A injecção de motivação e de confiança surtiu o efeito desejado. A equipa venceu o Penafiel, em casa, por 4-2, e pôde festejar a manutenção. De que forma o treinador viveu esse momento e quais os pensamentos que tomaram conta de si?
Acho que, mesmo sem o vídeo, a equipa estaria motivada a vencer o jogo. Isto é como ir para um exame sem estudar a matéria. Tínhamos consciência do trabalho que foi feito ao longo da época e daí em algum momento não termos acreditado noutro desfecho que não fosse a nossa permanência. Pecámos no jogo, em casa, com o Boavista, mas penso que todos viram que não fomos felizes e depois o jogo, em Paços de Ferreira, que não nos correu da melhor forma. Mas também tínhamos a consciência de que, em caso de empate com os nossos adversários directos, éramos a melhor equipa e provámos isso mesmo. A minha reacção foi normal, calmo e com a serenidade do dever cumprido. Aliás, antes do jogo pedi mesmo aos atletas para não festejarem a manutenção. Era importante agradecer aos nossos sócios e simpatizantes todo o apoio que nos prestaram ao longo da época e, em especial, neste jogo, mas que não fazia sentido, estarem num clube com a grandeza do Varzim e andarem a festejar manutenções. Mas também tenho a noção de que não foi uma época fácil e daí algum excesso de um ou outro jogador na hora de festejar.

O balanço que faz da época desportiva é positivo?
Entendo a sua pergunta e vou responder de duas formas. A primeira, se analisarmos os objectivos desportivos, na minha opinião e depois do mau início, até acabamos por realizar um campeonato bom. Quando acabou a fase regular estávamos acima dos lugares de despromoção e na fase de manutenção confirmamos esse objectivo. A segunda é que estamos a trabalhar em formação e o objectivo do clube é, claro, formar jogadores que sirvam o futuro do Varzim e, nesse ponto, penso que sai daqui uma boa fornada de atletas e mesmo um ou outro que ainda tem mais um ano no escalão júnior pode mesmo dar o salto para a equipa B ou para a equipa A.

Na próxima temporada, já é do conhecimento público que o António Carlos vai manter-se à frente da equipa de Juniores do Varzim. Está satisfeito com a continuidade?
Se fiquei feliz pelo convite da primeira vez, este ainda me honra muito mais e digo isto porque, se antes não existia conhecimento do que eu poderia valer para o clube, neste momento, as pessoas entendem que posso ser útil e, claro, não posso deixar de ficar feliz. O Varzim é o meu clube de coração e jamais, em momento algum, iria colocar os meus interesses pessoais acima dos interesses do Varzim. Agradeço a confiança que o Alexandre e o Presidente Pedro Faria depositam em mim.

Como é normal, vai haver mudanças no plantel, até porque oito jogadores terminaram a sua Formação. Quais são as suas perspectivas para a próxima temporada?
As perspectivas para a próxima época são as que o clube defende. Em primeiro lugar, formar jogadores para que eles possam servir o Varzim num futuro próximo, tentar dentro desses levar alguém às selecções nacionais. E, claro, no mesmo patamar, defender o bom nome do Varzim em cada jogo. Fazer com que os atletas tenham a noção da responsabilidade que é vestir esta camisola, perceberem que só, com muito suor e muita determinação, se chega a objectivos superiores, quer colectivos, quer individuais.

Qual a mensagem que deixa aos miúdos que terminaram a sua Formação e que vão, agora, tentar a sua sorte como séniores?
Em primeiro lugar, quero dizer-lhes que foi um prazer enorme fazer parte do crescimento deles como homens e como atletas. Ficou connosco um pouco de cada um, assim como acredito que cada um deles leva um pouco desta equipa técnica. Desportivamente, acredito que estão aptos para iniciar uma nova vida. Se cada um deles der o melhor de si, certamente sai a ganhar o Varzim e eles por concretizarem um sonho que tanto lhes custou. Mas têm que perceber que isto não acabou, aliás é agora que começa, cada um por si em prol de um objectivo comum, ganhar pelo Varzim. Aqui também temos que louvar o Varzim, pela coragem da criação da equipa B, que muitos, inicialmente, criticaram e depois foram atrás do nosso clube, mais uma vez o Varzim foi pioneiro.

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