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António Cacheira está ao serviço da Formação do Varzim há cerca de 16 anos. Um percurso longo e que, sobretudo, nos últimos anos, tem sido recheado de resultados desportivos bastante positivos nos escalões iniciais, colocando o Varzim ao nível de clubes de renome e com condições de trabalho bem mais superiores...
O desempenho das suas equipas nesta época 09/10 é um exemplo claro do trabalho notável que Cacheira tem realizado junto dos pequenos futebolistas e que assenta numa dedicação extrema ao clube, mas sobretudo, aos miúdos que espera ver singrar no futebol e na vida.
Já foi treinador nos outros escalões, mas confessa que o “melhor lugar” na Formação é o que ocupa actualmente.
Vamos começar por falar do jogo com o FC Porto, no passado Sábado, em Infantis, referente ao apuramento do Campeão da 1ª Divisão. O Varzim esteve a ganhar por 2-0, mas na fase final da partida, o FC Porto conseguiu empatar e garantiu o título. Que análise faz desse desfecho e da forma como o jogo se desenrolou?
O Varzim fez um jogo espéctacular, não esteve em nada inferior ao FC Porto, muito pelo contrário. Estávamos a ganhar por 2-0, por mérito nosso e não por demérito do Porto, porque jogámos para conseguir esses dois golos de diferença. Foi pena, no final do jogo, consentirmos o empate. Julgo que esse deslize teve a ver com uma pequena confusão que existiu antes do primeiro golo do Porto e que desconcentrou os nossos miúdos. Se o jogo demorasse mais 5 ou 10 minutos, se calhar, até éramos capazes de sofrer mais golos. Mas o jogo valeu até essa altura da confusão em que o Varzim, mais uma vez, demonstrou que, independentemente de não ter as condições e a matéria prima que o Porto tem, é uma equipa bem organizada, tanto defensiva como ofensivamente. Mostrámos mais uma vez que, ás vezes, não é por se ter piores condições que não se faz um bom trabalho. Penso que o FC Porto reconheceu isso mesmo, pela atitude do treinador e do seu director no final do jogo. A capacidade do Varzim viu-se, não porque o Porto teve um dia menos bom, mas porque o Varzim o obrigou a não estar tão bem como nos outros dias.
Diferença nas condições de trabalho, igualdade dentro das quatro linhas. Certamente, isso fez com que lutar pelo título de campeão com o FC Porto tivesse um sabor ainda mais especial...
Independentemente de perdermos o último jogo com o Gondomar, o 2º lugar já está garantido e esse feito em si já é espéctacular. No contexto de ser campeão, é óbvio que sentimos um sabor amargo. Empatar com o Porto noutro contexto, em casa ou fora, é sempre um grande resultado e, por isso, só tenho que dar os parabéns aos miúdos pelo comportamento que tiveram e que foi muito acima da média. Na verdade não fiquei surpreendido, porque tenho um conhecimento profundo do valor dos meus jogadores e sei que, quando estão em dia «sim», são capazes de fazer estas gracinhas.
Olhando para a performance das equipas em ambos os escalões, o Cacheira só tem motivos para estar orgulhoso. Que comentários lhe merece os feitos conseguidos esta época?
Em primeiro lugar, deixe-me dizer que todo o trabalho feito com a equipa e o mérito que dele advém, é meu, mas também do Tobias, do Filipe e do Formoso que são os treinadores que colaboram comigo nestes dois escalões e que, por isso mesmo, não podem, nem merecem ser esquecidos. Quanto aos comentários sobre os percursos nesta época, só podem ser os melhores. Dos Infantis penso que está tudo dito. Em relação aos Escolinhas, as duas equipas ficaram em 1º lugar na 1ª fase e é claro que, agora, só uma é que vai discutir o título e, com certeza, vamos ter uma palavra a dizer. Ainda não conheço o potencial dos adversários, mas à medida que os for conhecendo, vou tirar ilações sobre se de facto temos ou não potencial para discutir o título. À partida acho que seremos um dos sérios candidatos.
Como referiu, as duas equipas de Escolas ficaram em 1º lugar mas, na série 3, a classificação foi obtida com números extraordinários: 76 pontos (25 vitórias, 1 empate, 0 derrotas), 166 golos marcados (!) e apenas 7 golos sofridos! Que leitura faz destes números?
Não se pode dizer que os adversários são fraquinhos, isso é tirar mérito aos miúdos. A verdade é que tenho uma EQUIPA, na verdade acepção da palavra. Não há nenhum jogador que se distinga e a prova é que esses 166 golos estão distribuídos quase por toda a gente. Esta equipa não depende de um ou outro jogador. É a equipa em si. Se ela estiver bem durante o jogo, podemos fazer grandes resultados, se estiver mal, fazemos péssimos resultados. Não temos um jogador que, nos momentos mais difíceis, possa resolver. Isso é um sinal de que, em todos os sectores, a equipa está bem preenchida.
O trabalho que tem vindo a fazer nos escalões iniciais, reflecte-se na classificação das equipas. Nunca sentiu desejo de voltar ser treinador de um escalão superior, como por exemplo os Juniores?
Já passei por essas experiências todas. Já treinei os iniciados, os juvenis e os juniores. Não estou a dizer que me tenha dado mal, mas a verdade é que, na minha opinião, o lugar mais importante na Formação é precisamente este que ocupo e não estou a puxar a brasa à minha sardinha, aliás quem me conhece sabe que isso não faz parte do meu feitio. Claro que, quem anda no futebol, quer sempre mais alguma coisa, mas sinceramente eu não ando atrás disso. O que eu quero é estar no sítio que estou e sentir-me bem, porque considero o meu trabalho útil para o desenvolvimento dos miúdos, como jogadores e como homens. Portanto, por eu sentir que estou bem, não tenho aspirações a nada. Por outro lado, estou aqui para servir o Varzim e sigo o rumo natural das coisas. Mas, sublinho, não é isso que me move. O que me move é fazer com que os miúdos evoluam sempre mais para terem uma base sólida, nos escalões seguintes. Há pessoas que reconhecem isso, há outras que não, mas isso é secundário.
Sente que o seu trabalho e o dos seus miúdos é reconhecido, inclusivamente pelos sócios do clube? As pessoas dirigem-lhe palavras de apreço, por exemplo?
Não sou uma pessoa que ande pelos cafés ou nas esquinas a conversar com as pessoas. Mas as poucas que acompanham a Formação e que estão todos os sábados a ver os jogos, têm uma opinião melhor formada em relação àquilo que se passa. Ás vezes, converso com elas sobre a Formação e até sobre a equipa profissional e, nessas conversas, vou percebendo o reconhecimento das pessoas pelo trabalho que é desenvolvido. Obviamente, há sempre alguém que não gosta, alguns que até querem vir para o meu lugar e são os primeiros a dizer mal, mas eu já tenho muitos anos de futebol e sei que essas coisas são assim. Custa ouvir determinadas coisas mas o futebol é assim. O importante é eu ter a consciência tranquila porque faço o melhor que posso e sei. Acho que o trabalho que tenho feito, ao longo destes anos, está à vista de toda a gente.
A haver melhores condições de trabalho no futuro, com a construção de infra-estruturas para a Formação no novo estádio, de que forma estas se irão reflectir no desempenho das equipas?
Por exemplo, nós fazemos dez jogos com o Porto e perdemos os dez. Com melhores condições de trabalho, não tenho dúvidas de que, perderíamos apenas seis e ganhávamos quatro. Claro que as diferenças vão continuar a existir, principalmente, ao nível de matéria prima, porque nós é com aqueles miúdos que trabalhamos sempre e o Porto vai buscar miúdos a outros clubes. Esta equipa de Infantis do Porto, quando muito, tem dois ou três jogadores que vieram dos Escolinhas. Enquanto que a minha equipa de Infantis de agora foi a minha equipa de Escolas. A equipa do Porto tem pelo menos sete ou oito jogadores provenientes de outros clubes.
Qual o conselho que dá com mais frequência aos seus jogadores?
Dou vários conselhos, mediante as situações que vão surgindo. Mas, acima de tudo, trabalho para que eles sejam melhores jogadores, melhores homenzinhos e melhores estudantes, porque essa vertente também é muito importante. Depois falo muitas vezes com eles sobre a importância de não saírem precipitadamente do clube e, inclusive, alerto alguns pais nesse sentido; procuro fazer-lhes entender que não é a melhor solução e dou sempre o meu exemplo, quando era jovem. Nos juvenis também fui aliciado para ir para o FC Porto, mas recusei por saber que dificilmente teria futuro lá. Já no clube onde iniciei a minha carreira, o Leixões, tinha fortes hipóteses de dar o salto dos juniores para os séniores e assim aconteceu. A carreira de futebolista deve ser construída passo a passo, sem precipitações, porque só assim é que o jogador terá condições para chegar ao topo e permanecer lá o máximo de tempo possível. Os conselhos que dou aos meus miúdos vão precisamente nesse sentido, que tenham calma e não se importem de esperar, porque ás vezes fazer escolhas à pressa não leva a lado nenhum. Depois procuro que eles sejam disciplinados, que tenham respeito uns pelos outros, respeito por eles próprios e pelo adversário e respeito por todas as pessoas que os rodeiam, principalmente, pelos adultos.
Para além dos resultados desportivos que vai alcançando, a maior recompensa será, certamente, ouvir jogadores que passaram por si, eleger o Cacheira como o treinador mais marcante na Formação...
É bonito ser reconhecido pela entidade patronal e pelas pessoas que estão ligadas ao clube, mas costumo dizer que o mais importante é ser reconhecido pelos miúdos que passaram por mim. Esse é o meu verdadeiro motivo de orgulho. Eles não se esquecem de mim, casam e convidam-me... Independentemente de terem jogado regularmente ou não, todos têm consideração e carinho por mim. Tenho muito orgulho nisso. Nesse aspecto estou cheio de medalhas, já nem cabem na minha sala de troféus. (risos)
SN
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